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Listas de Melhores


Segunda-feira, Março 31, 2008  

Eu sei, mas não devia

Eu sei que a gente se acostuma.

Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E porque à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora.

A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíches porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir a janela e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com o que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema, a engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À luta. À lenta morte dos rios. E se acostuma a não ouvir passarinhos, a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque tem sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.

Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.

A gente se acostuma para poupar a vida.

Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.


Marina Colasanti


Marina Colasanti nasceu em Asmara, Etiópia, morou 11 anos na Itália e desde então vive no Brasil. Publicou vários livros de contos, crônicas, poemas e histórias infantis. Recebeu o Prêmio Jabuti com Eu sei mas não devia e também por Rota de Colisão. Dentre outros escreveu E por falar em Amor; Contos de Amor Rasgados; Aqui entre nós, Intimidade Pública, Eu Sozinha, Zooilógico, A Morada do Ser, A nova Mulher, Mulher daqui pra Frente e O leopardo é um animal delicado. Escreve, também, para revistas femininas e constantemente é convidada para cursos e palestras em todo o Brasil. É casada com o escritor e poeta Affonso Romano de Sant'Anna.


Extraído do livro "Eu sei, mas não devia", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1996, pág. 09. Obtido no site Releituras

posted by ANDRÉ COMPAN | 11:29 AM


Domingo, Outubro 29, 2006  

Digamos que um homem chamado Paulo esteja atraído por uma mulher chamada Elaine. Ele a convida para ir ao cinema; ela aceita; e eles passam uns bons momentos juntos.

Alguns dias depois ele a convida para jantar, e novamente eles adoram a companhia um do outro. Eles continuam se vendo regularmente e logo nenhum deles está saindo com outra pessoa.
E então, numa noite, eles estão retornando de carro para casa dela, e Elaine tem um pensamento. Sem pensar muito ela diz alto:

- Você percebeu, que, como hoje, nós estamos saindo juntos há exatamente seis meses?


E então há aquele silêncio no carro. Para Elaine, parecia uma eternidade. E logo ela pensa com ela mesma: (Que burra! Eu tinha que fazer este comentário logo agora? Isto pode ter chateado ele. Talvez ele esteja se sentindo preso pelo nosso relacionamento; talvez ele pense que eu o esteja pressionando para um compromisso que ele ainda não quer, ou ainda não está bem seguro disso.)

E Paulo está pensando: (Puxa! Seis meses!)

E Elaine pensa: (Hei! Mas eu também ainda não estou certa de querer este tipo de relacionamento. Às vezes eu penso que seria melhor eu conservar o meu espaço, eu tenho que pensar se eu quero continuar avançando nesta direção, e saber para onde estamos indo? Vamos continuar nos vendo um ao outro neste nível de intimidade? Estamos caminhando na direção de um casamento? De filhos? Enfim, de uma vida longa juntos? Estarei eu pronta para este tipo de compromisso? Eu realmente conheço esta pessoa?)

E Paulo está pensando: (Então isto significa que foi ... vejamos ... Fevereiro, quando nós começamos a sair juntos foi
exatamente quando eu comprei este carro na concessionária. Isto significa ... Deixa eu conferir o velocímetro ... Puxa! Eu já passei da quilometragem para a revisão dos 5.000 Km.)

Elaine está pensando: (Ele está preocupado. Posso ver na sua face. Talvez eu devesse ter ficado com a boca fechada. Talvez ele queira mais do nosso relacionamento, mais intimidade, mais cumplicidade; talvez ele tenha sentido - mesmo antes de eu sentir - que eu estava me reservando demais. Sim, eu aposto que é isso. É por isso que ele está tão relutante
em dizer alguma coisa sobre seus sentimentos. Ele está com medo de estar sendo rejeitado.)

E Paulo está pensando: (Eu preciso levar o carro para eles verem esse barulho na transmissão novamente. Não importa o que eles dizem, o barulho diminuiu, mas continua. Eles vão dizer que o motor está amaciando. Mas que amaciando? Com 5.000 KM? É melhor eles nem tocarem nisso. "Amaciando" era para os motores de 30 anos atrás... Estamos no ano 2004, e este carro está fazendo um barulho como se fosse um caminhão de lixo. E eu paguei R$ 22.000,00 àqueles ladrões por este carro.)

E Elaine está pensando: (Nossa! Ele está mesmo zangado e eu não o culpo. Eu estaria também zangada. Deus, eu me sinto tão culpada, colocando-o na parede desse jeito, mas a maneira como me sinto não vai ajudar em nada. Só que eu não estou muito certa....)

E Paulo está pensando: (Eles provavelmente vão dizer que o carro agora está fora da garantia. Isso é exatamente o que eles vão dizer, aqueles salafrários. Na hora de vender eles prometem tudo. Agora.....)

E Elaine ainda pensa: (Talvez eu seja muito idealista esperando por um cavaleiro montado em um cavalo branco, enquanto eu estou sentada ao lado de uma pessoa boa, uma pessoa com quem eu gosto de estar, uma pessoa com quem eu me sinto bem, uma pessoa que parece verdadeiramente se interessar por mim, e que está chateado agora devido ao meu egoísmo, sonho de meninice, e de fantasia romântica.)

E Paulo está pensando: (Garantia? Eles querem garantia? Eu dou esta maldita garantia. Eu vou pegar esta garantia e falar para eles para enfiarem...)

- Paulo - fala Elaine alto.

- O que? - diz Paulo.
- Por favor, não se torture com isso! - diz ela,seus olhos começam a brilhar com lágrimas - Talvez eu não devesse ter comentado... OHH! Eu me sinto tão ... Elaine para e soluça.

O que? - diz Paulo, preocupado em tentar relembrar algo que ela tivesse dito e que ele não tivesse prestado atenção.

- Eu sou tão tola - Elaine soluça - Eu quero dizer, eu sei que não há nenhum cavaleiro. Eu sei realmente. Que Tolice. Não há cavaleiro e não há nenhum cavalo.

- Não há nenhum cavalo? - diz Paulo.

- Você deve pensar que eu sou uma tonta, não é? - diz Elaine.

- Não! - diz Paulo, feliz por finalmente saber uma resposta correta.

- É somente... É somente que ... Eu preciso de algum tempo -diz Elaine.

(Passam-se uns 15 segundos até que Paulo, tentando pensar tão rápido quanto podia, pudesse achar uma resposta segura. Finalmente ele vem com uma que ele pensa que pode dar certo. Afinal não queria revelar que não estava entendendo sobre o que ela estava falando).

- Sim - diz ele. (Elaine, profundamente comovida, toca a sua mão.)

- OH , Paulo, você realmente sente desse modo? - diz ela.

- Sobre o que? - diz Paulo.

- Sobre o tempo - diz Elaine.

- OH - diz Paulo - Sim.

(Elaine vira o rosto dele para ela e olha em seus olhos, causando nele um certo nervosismo sobre o que ela poderia falar em seguida, especialmente se envolvesse um cavalo).

Por último ela fala.

- Obrigada, Paulo. Você é maravilhoso - diz ela.

- Obrigado, você também - diz Paulo.

Então ele leva ela para casa, e ela deita em sua cama, e conversa com sua torturada alma, e se vira pra lá e pra cá, até altas horas na madrugada enquanto Paulo, volta para seu apartamento, abre um pacote de batatas fritas, liga a TV, e começa a ver o replay de um jogo de tênis de dois jogadores tchecoslovacos que nunca havia ouvido falar antes. Uma voz no fundo da sua mente lhe dizia que poderia haver algo mais sério relacionado com o barulho que ele estava tendo no carro, mas ele não podia deduzir nada. Não entendia nada de mecânica. Então era melhor não pensar mais nisso...

No dia seguinte, Elaine telefonará para sua melhor amiga, ou talvez duas delas, e elas conversarão sobre esta situação por seis horas sem parar. Elas analisarão, em detalhes tudo que ela falou, o que ele disse e revisarão muitas vezes, explorando cada palavra, expressão, e gestos para entender as nuances, e considerando cada possível ramificação. Elas continuarão discutindo este assunto muitas vezes, por semanas e meses, nunca chegando a uma conclusão definitiva, mas nunca se enchendo de tocar no assunto.

Neste meio tempo, um dia, Paulo, enquanto joga tênis com uma amiga comum dele e da Elaine, faz uma pausa antes de tomar um copo de água e pergunta:

- Cristina, a Elaine tem algum cavalo?


Autor Desconhecido

(Eu já tinha lido esse texto, mas não estava encontrando, por isso estou botando no blog para nunca mais perder...)

posted by ANDRÉ COMPAN | 8:46 AM


Domingo, Abril 25, 2004  

Neste blog serão postadas as minhas listas de melhores...

posted by ANDRÉ COMPAN | 7:55 PM
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